A Universidade de Cambridge anunciou uma revisão em seus processos de contratação para professores seniores. A decisão ocorre após o caso de Jason Arday, sociólogo que foi apresentado em 2023 como o mais jovem professor negro da história da instituição e que renunciou no início de agosto, em meio a acusações de plágio e de ter distorcido sua biografia. Arday foi encontrado morto na sexta-feira, sem sinais de crime, conforme informações da polícia.

O caso levanta questões sobre os critérios de contratação de Cambridge, uma das instituições mais rigorosas do mundo, e o que pode ter sido negligenciado em sua avaliação.

A Trajetória e a Contratação de Arday

Jason Arday chegou a Cambridge como uma aquisição de prestígio. Sua história pessoal era notável: filho de pais ganeses, crescido em um conjunto habitacional no sul de Londres, ele relatava ter sido diagnosticado com autismo, não ter falado até os 11 anos e só ter aprendido a ler e escrever aos 18. Arday obteve seu doutorado e trabalhou nas universidades de Durham e Glasgow. Em 2023, aos 37 anos, foi anunciado como o mais jovem professor negro a ocupar uma cátedra na universidade, que possui oitocentos anos de história. Para Cambridge, que enfrenta pressão para diversificar um corpo docente predominantemente branco, a nomeação representava tanto um reforço acadêmico quanto um símbolo.

As Acusações e a Renúncia

As primeiras rachaduras na imagem de Arday surgiram em julho. O jornal The Telegraph publicou uma análise de sua tese de doutorado, defendida em 2015 na Liverpool John Moores University, apontando mais de cem trechos idênticos ou quase idênticos a uma tese de 2009 de Paula Zwozdiak-Myers, da Universidade Brunel. No mesmo dia, o The Times fez uma análise similar e, dias depois, reportou anomalias em artigos científicos de Arday. Em 1º de agosto, o The Guardian questionou episódios narrados por Arday sobre sua própria vida.

Arday admitiu ter cometido erros em seu trabalho, mas negou má conduta, declarando a um repórter: “Por que eu mentiria?”.

O Debate sobre o Plágio

O conceito de plágio no caso é mais complexo. As duas teses abordam temas similares – a prática reflexiva na formação de professores – e, por isso, recorrem a fontes comuns, o que naturalmente gera semelhanças. A tese de Arday citava Zwozdiak-Myers dezessete vezes. A discussão entre críticos e defensores focou na questão de que, pelos padrões acadêmicos rigorosos, ele deveria ter creditado a colega a cada paráfrase, e não apenas na maioria das vezes.

As universidades ligadas a Arday – a Liverpool John Moores University, que lhe concedeu o título, e Cambridge, que o contratou – afirmam ter examinado seu trabalho e não encontrado irregularidades. No entanto, acadêmicos externos, incluindo um professor emérito que classificou o material como plágio grave e sem outra explicação plausível, pedem uma nova análise, mencionando ter alertado as duas instituições em 2023. Isso levanta dúvidas sobre o rigor das checagens iniciais.

Questionamentos sobre a Contratação de Cambridge

Com a fragilidade das credenciais de Arday exposta, o foco se voltou para Cambridge. A pergunta central é como essas informações passaram pelo crivo da universidade. Alguns acadêmicos sugerem uma contratação acelerada, possivelmente para exibir uma conquista em diversidade, sem o escrutínio habitual. A demanda por maior rigor veio até mesmo de setores progressistas.

Uma carta liderada pela professora Priyamvada Gopal, conhecida por sua defesa antirracista, exigiu uma investigação independente sobre a nomeação de Arday. A carta alertava que o escândalo poderia comprometer o avanço de Cambridge na representação de minorias, prejudicando justamente os acadêmicos negros.

Cambridge não foi a única instituição a revisar seus processos. A Universidade de Glasgow, onde Arday trabalhou anteriormente, também abriu uma revisão sobre sua contratação. Além de investigar as qualificações de Arday, Cambridge prometeu rever todo o seu processo de nomeação para cargos seniores, transformando o caso individual em um problema de método institucional.

O episódio ressalta a importância de que as instituições, ao buscarem prestígio ou a aparência de diversidade, mantenham o rigor em seus processos de avaliação, aplicando o mesmo escrutínio que exigem em trabalhos acadêmicos às trajetórias que escolhem celebrar. A universidade prometeu que a revisão abordará tanto o processo que falhou quanto a vida que se perdeu no decorrer dos acontecimentos.

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