Os Estados Unidos são o principal palco da Copa do Mundo de 2026, que teve início na última quinta-feira (11). Contudo, a mobilização nacional em torno do evento não é tão evidente. Uma das razões apontadas para esse cenário é a forte tradição de outros esportes no país, como o futebol americano, jogado com as mãos e uma bola oval.

Embora o futebol tradicional, conhecido globalmente como soccer, tenha crescido em investimento e visibilidade, atraindo atletas de renome como Lionel Messi, Luis Suárez e James Rodríguez para a liga nacional, o apoio local ainda é limitado. A atual seleção americana, considerada uma das melhores do século, estreou na Copa com uma vitória de 4 a 1 sobre o Paraguai, mas o interesse geral do público ainda é um desafio.

A percepção do futebol nos EUA

Thaís Bentes, brasileira residente no Colorado, relata que a Copa “quase não existe” visualmente nas ruas americanas, com os jogos transmitidos apenas em alguns bares. Uma queixa comum entre os americanos é que o futebol é “parado demais”, em contraste com esportes populares nos EUA, como basquete e futebol americano, que oferecem mais ações decisivas e pontuações elevadas. Mesmo o hóquei no gelo, que compartilha a dinâmica de gols, apresenta um ritmo mais acelerado, com substituições frequentes para manter a intensidade.

As principais modalidades americanas raramente terminam em empate, utilizando prorrogações (overtime) para definir um vencedor. A FIFA tem buscado adaptar regras para aumentar a fluidez do jogo, como limites de tempo para cobranças de laterais, tiros de meta e substituições, além de exigir que jogadores lesionados deixem o campo por um minuto para inibir simulações. Um relatório do Campeonato Brasileiro indicou que a bola fica em jogo por apenas 53% do tempo regulamentar, com 47% de paralisações.

Desafios culturais e o legado de Pelé

Fatores culturais também contribuem para a dificuldade do futebol em se firmar nos EUA. O esporte chegou com imigrantes europeus no século XIX, mas praticamente desapareceu após a Segunda Guerra Mundial. Em 1966, a transmissão via satélite da final da Copa do Mundo pela NBC reavivou o interesse, levando à criação da North American Soccer League (NASL) em 1968.

A liga ganhou impulso em 1975 com a chegada de Pelé ao Cosmos de Nova York, quadruplicando a média de público e triplicando de tamanho na década de 70. Contudo, esse fenômeno foi passageiro, e a NASL encerrou suas atividades em 1984. O New York Times atribuiu o fracasso à falta de uma “base sólida” e à falha em desenvolver jogadores locais, priorizando estrelas internacionais em detrimento da formação de talentos americanos. Apesar disso, o periódico reconhece que a NASL inspirou milhões de crianças a se apaixonarem pelo esporte.

Por muitos anos, o futebol foi visto como um “esporte de imigrantes”, enquanto beisebol, basquete e futebol americano eram considerados paixões nacionais. Um artigo do Los Angeles Times em 1994, ano da primeira Copa do Mundo em solo americano, destacou que a prosperidade do futebol no país dependia da “dedicação dos imigrantes”. Uma pesquisa Gallup de fevereiro deste ano confirmou o futebol americano como o esporte preferido, seguido por beisebol e basquete, com o soccer em quarto lugar. A barreira geracional e a forte ligação local com times históricos dos esportes “nativos” também limitam o crescimento do futebol.

Projeções e a influência latina

Em 1998, o “Projeto 2010” da federação americana de futebol visava tornar a seleção uma candidata ao título mundial em 2010, com um investimento de 50 milhões de dólares para desenvolver as categorias de base. O projeto não alcançou o objetivo, com a equipe caindo nas oitavas de final contra Gana. Em 2017, o então técnico Bruce Arena expressou a esperança de que 2026 seria o ano para a seleção sonhar com a conquista da Copa, apostando em Christian Pulisic, hoje camisa 10 e principal nome do time.

Enquanto os investimentos na Major League Soccer (MLS) não cativam integralmente o público americano, a liga tem conquistado imigrantes, especialmente os latino-americanos. Times em regiões com alta concentração hispânica, como Flórida e Texas, adotam o “marketing bilíngue”. O Houston Dynamo reporta que quase 60% de seus torcedores se identificam como hispânicos. O Inter Miami, time de Lionel Messi, também possui forte influência hispânica, refletida no nome, torcida e proprietários de origem cubana, transformando os estádios em festas com elementos culturais latinos, como faixas, bandeiras e músicas em espanhol.

Desafios diplomáticos e de segurança na Copa

Ao contrário de outros países-sede, o governo americano tem mantido uma postura rigorosa na concessão de vistos e na segurança. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan teve sua entrada recusada e foi interrogado, sob suspeita de envolvimento com terrorismo, o que ele nega. A FIFA lamentou, mas afirmou não poder intervir em decisões migratórias.

A seleção iraniana, por determinação da Casa Branca, só pôde entrar nos EUA na véspera de seus jogos, retornando ao México após as partidas. Dois membros da delegação, incluindo o capitão Mehdi Taremi, enfrentaram problemas de documentação no retorno, levando Taremi a classificar as condições como um “desastre” e pedir auxílio da FIFA. A segurança nos estádios também é intensificada, com revistas rigorosas, como a que jogadores do Uruguai foram submetidos, gerando descontentamento.

Histórico e projeções futuras

Os Estados Unidos participaram da primeira Copa do Mundo em 1930, no Uruguai, alcançando sua melhor colocação histórica nas semifinais. Desde então, classificaram-se para outras 11 edições, com o melhor desempenho após 1930 sendo as quartas de final em 2002. A imprensa local vê a atual seleção com otimismo, especialmente após a goleada na estreia. O New York Times descreveu o primeiro tempo da vitória contra o Paraguai como os “melhores 45 minutos da história das Copas do Mundo” para a equipe americana. No entanto, apesar das esperanças, a seleção dos Estados Unidos ainda é considerada uma “zebra” nas casas de apostas, figurando abaixo de potências como França, Espanha, Inglaterra, Argentina e Brasil.

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