A recente eleição na Colômbia, que teve seu resultado questionado pelo presidente Gustavo Petro, coloca em evidência uma tática crescente de partidos de esquerda na América Latina: a judicialização e a contestação de resultados eleitorais desfavoráveis. Na noite de domingo, dia 21, com 99,8% das urnas apuradas e o candidato de direita Abelardo de la Espriella à frente por quase um ponto percentual, Petro levantou dúvidas sobre o processo, mesmo com uma diferença de 250 mil votos. Essa postura, segundo observadores, reflete um padrão já visto em Honduras e no Peru.

O Sistema Eleitoral Colombiano e a Brecha para Contestações

Para entender a manobra, é crucial analisar o sistema eleitoral colombiano, que opera em duas fases distintas. A primeira é o preconteo, uma pré-contagem informativa realizada por empresas privadas, que não possui validade legal. Em seguida, ocorre a apuração oficial, conduzida por juízes e com reconhecimento jurídico. A divulgação do preconteo cria um intervalo de dias entre o resultado preliminar e o oficial, uma brecha que, na visão de alguns, tem sido explorada para contestar contagens desfavoráveis.

Petro já havia empregado uma estratégia semelhante nas eleições presidenciais de 2022, quando, disputando contra Rodolfo Hernández, levantou suspeitas sobre o sistema. Naquela ocasião, ele manteve uma narrativa de desconfiança, sugerindo que a elite política poderia manipular o processo para impedir uma vitória da esquerda. As missões internacionais, contudo, validaram o pleito, e ele foi declarado vencedor do segundo turno.

Neste ano, após o preconteo no final de maio, o presidente colombiano acusou, sem apresentar provas, a empresa local Thomas Greg & Sons de incluir 800 mil eleitores “fantasmas” em seu software. Ele também alegou que Israel teria interferido no programa de computador da pré-contagem para favorecer a divulgação de resultados para Abelardo de la Espriella, atribuindo essa suposta interferência às suas críticas à atuação israelense em Gaza, que ele classifica como “genocídio”. O questionamento do preconteo permite que Petro não negue a democracia, mas a coloque em dúvida por um período.

Casos Anteriores em Honduras e Peru

A estratégia de contestação eleitoral não é exclusiva da Colômbia. Em Honduras, no final do ano passado, a candidata Rixi Moncada, apoiada pela então presidente Xiomara Castro, obteve o terceiro lugar nas eleições. Em vez de aceitar o resultado, ambas denunciaram um suposto “golpe eleitoral em curso”, alegando manipulação por interesses externos, com foco nas ações do ex-presidente dos EUA, Donald Trump. O partido LIBRE, de Castro e Moncada, listou acusações contra Trump, como apoio ao candidato de direita Nasry Asfura, ameaças de corte de ajuda financeira e o perdão concedido a Juan Orlando Hernández, ex-presidente condenado por narcotráfico. O resultado oficial demorou 24 dias para ser divulgado, na véspera de Natal, com a vitória de Asfura.

No Peru, o segundo turno presidencial, realizado em 7 de junho, viu a candidata de direita Keiko Fujimori receber 50,11% dos votos, contra 49,89% do esquerdista Roberto Sánchez. O resultado oficial, no entanto, ainda não foi divulgado, transformando a apuração em uma disputa de recursos legais. A esquerda peruana questiona a contagem, denuncia a influência do Congresso e alimenta uma narrativa de processo viciado, embora observadores da União Europeia não tenham encontrado irregularidades graves.

As Implicações da Nova Estratégia

Nesta segunda-feira, dia 22, Iván Cepeda anunciou que seu partido solicitará a impugnação de 33 mil mesas eleitorais, citando “erros” apontados por juristas da própria legenda. A apuração oficial está prevista para ser concluída na mesma data.

Historicamente, a esquerda latino-americana construiu parte de sua identidade acusando a direita de desrespeitar a vontade popular. Contudo, a versão atual dessa contestação é mais sofisticada. Não propõe o fechamento do Congresso ou a intervenção militar. A lógica, agora, visa aumentar o custo político da derrota. Ao gerar tumulto na apuração e inundar os tribunais com pedidos de contestação, os partidos que perdem buscam forçar acordos nacionais para garantir participação no novo governo ou manter o vencedor sob suspeita até as próximas eleições. Acredita-se que ambos os objetivos podem ser buscados simultaneamente.

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