A historiografia brasileira tem, por vezes, narrativas dominantes que moldam a percepção de eventos cruciais. A chegada da Corte Real Portuguesa ao Brasil em 1808 é frequentemente retratada como uma fuga apressada de Napoleão Bonaparte, com a monarquia chegando ao Novo Mundo de forma desorganizada e anacrônica. No entanto, uma voz contemporânea e hoje pouco lembrada, a do Padre Luís Gonçalves dos Santos (1767-1844), conhecido como Padre Perereca, oferece uma perspectiva distinta, quase heroica, sobre esse momento histórico.

Nascido no Rio de Janeiro, filho de um português e uma brasileira, Luís Gonçalves dos Santos foi testemunha ocular da chegada da família real. Ordenado padre aos 27 anos, ele ganhou o apelido de “Perereca” devido à sua compleição física, descrita em relatos como baixa, com lábios grossos e voz fina, uma “fealdade não comum”, como mencionou o historiador Francisco Agenor de Noronha Santos (1876-1954) em um prefácio depreciativo.

Um relato de primeira mão e o estilo de crônica

Em sua obra “Memórias para servir à história do Reino do Brasil”, Padre Perereca narra a chegada da corte com grande entusiasmo, descrevendo o evento como um momento de “maior ventura” para o Brasil. Ele registra o dia 7 de março de 1808, “entre duas e três horas da tarde”, como um dia “muito fresco, belo e aprazível”, que o sol havia anunciado como o “mais ditoso para o Brasil”.

Seu estilo se assemelha a uma crônica jornalística, mesclando eventos históricos com detalhes do cotidiano. A popularidade de sua obra foi tamanha que recebeu menções em dois romances de Machado de Assis (1839-1908): “Casa Velha” (1886) e “Dom Casmurro” (1899), embora o escritor fosse, em geral, crítico ao clero.

Erudição e visão católica

Victor Almeida Gama, historiador brasileiro e doutor em Ciências da Religião pela PUC/MG, destaca a importância da obra de Padre Perereca, classificando-o como um dos primeiros historiadores do Brasil. Apesar das críticas recebidas por seu apoio declarado à Casa de Bragança, Gama afirma que a obra é “sem dúvidas uma obra erudita”.

Alexandre Sugamosto, escritor e doutor em Ciências da Religião, ressalta que as memórias do Padre Perereca são a “grande testemunha ocular do período joanino”, sendo reconhecidas por sua erudição e incluídas no Instituto Histórico já em 1839.

A erudição do padre se manifestava em seu interesse por retórica, filosofia, poética, geografia e grego, além de seu domínio da história, mesmo não sendo historiador de ofício. Como sacerdote, sua fé permeava suas escritas. Em “Memórias”, a chegada da Corte Portuguesa era vista não apenas como um fato histórico, mas como uma consequência da ação divina. As referências a Deus, Jesus Cristo e Nossa Senhora são constantes, e o autor exalta a forte ligação entre a Coroa portuguesa e a Igreja.

De acordo com Gama, Padre Perereca foi formado sob o espírito do ultramontanismo, uma doutrina católica que defendia a autoridade absoluta do Papa sobre a Igreja e os governos civis. Ele também escreveu outras obras de cunho religioso, como “O Celibato Clerical e Religioso Defendido dos Golpes de Impiedade e da Libertinagem” (1827) e “Apologia dos Bens Religiosos e Religiosas do Império do Brasil” (1828), defendendo o celibato e o patrimônio e as instituições religiosas, respectivamente.

Sugamosto complementa que a visão católica do padre era “aguerrida”, interpretando a história como providência divina e a chegada da corte como uma “graça dos céus”. Ele era um defensor fervoroso da Igreja Católica e um “inimigo ferrenho da maçonaria e do protestantismo”.

O silenciamento por razões ideológicas

A historiografia tradicional, muitas vezes de viés liberal, republicano e laico, tendeu a silenciar vozes como a do Padre Perereca. Essa visão frequentemente alinha Portugal com a Igreja como um agente prejudicial aos interesses do Brasil, ignorando as modernizações na administração pública e a criação de instituições como o Banco do Brasil, a Imprensa Régia e as bases da Universidade Federal da Bahia (UFBA) durante o período colonial.

Sugamosto lamenta que a “história que venceu” não tenha espaço para um padre ultramontano e monarquista. Ele cita Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878) e Luís Edmundo de Melo Pereira da Costa (1878-1961), que desqualificaram a obra do padre. Gama, por sua vez, aponta o positivismo do século XIX, que inspirou a Proclamação da República, como outro fator para o ostracismo do Padre Perereca, já que ele divergia tanto dessa visão progressista da história do Brasil quanto da historiografia nacionalista que enfatizava a luta pela independência.

Apesar dos ventos contrários da historiografia, a obra do Padre Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca, permanece como um registro valioso para aqueles que buscam uma perspectiva mais completa e detalhada de um dos momentos mais marcantes da história brasileira.

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