Padre cubano vislumbra fim do comunismo e desafios da transição para a democracia na ilha
O Padre Alberto Reyes, de Cuba, compartilha sua visão sobre o cenário político e social da ilha, a repressão e os desafios para uma transição democrática.
Sumário do artigo
O Padre Alberto Reyes, atuante em Esmeralda, Cuba, expressa uma perspectiva de que o regime comunista na ilha se aproxima do fim. Em entrevista à Aceprensa, realizada durante uma visita a Madri, o sacerdote detalhou os desafios históricos e contemporâneos enfrentados pelos cristãos e pela sociedade cubana, além de analisar os possíveis desdobramentos para o futuro do país.
Repressão e a luta pela fé
Padre Alberto relembra a hostilidade vivida por cristãos na Cuba dos anos 70, com objetos sendo lançados contra fiéis durante as missas e a doutrinação anticristã presente em materiais didáticos e comícios. Ele descreve um cenário onde os crentes eram vistos como “o bicho estranho”, sofrendo humilhações públicas e sendo desincentivados a buscar educação superior.
Atualmente, a repressão, embora diferente, persiste. O sacerdote relata intimações da Segurança do Estado devido às suas denúncias nas redes sociais sobre a “prostração moral e econômica” do país, após 67 anos de regime socialista. Ele destaca que suas publicações, muitas vezes iniciadas com a frase “Estive pensando…”, geram desconforto entre os agentes de segurança.
Ao ser questionado sobre a acusação de “se meter em política”, Padre Alberto diferencia a política partidária da política em sentido amplo. Ele afirma que a Igreja não deve se associar a partidos, mas tem o dever de se preocupar com o bem-estar da sociedade, agindo em prol dos necessitados. Ele ressalta que, neste sentido, a Igreja é chamada a fazer política, buscando o bem comum.
Intimidações e o papel da Igreja na transição
O sacerdote confirmou ter sido “convocado” pela Segurança do Estado em duas ocasiões para receber uma “ata de advertência”. Segundo ele, a acusação é de não agir “de acordo com a legalidade” ao denunciar os problemas de Cuba, sendo taxado de “promotor do ódio”. Ele explica que o governo vê como subversivo o discurso que incentiva os cubanos a defenderem seus direitos, e que alertar sobre a possibilidade de um desfecho violento, devido ao encurralamento do povo, é interpretado como incitação ao confronto.
Sobre a possibilidade de atentados físicos contra clérigos, Padre Alberto considera que, embora tudo seja possível, o governo estaria ciente do alto custo político, dado o prestígio alcançado pela Igreja por sua fidelidade e acompanhamento ao povo.
Ele aponta que o papel da Igreja na transição não é liderar as mudanças, mas sim usar a verdade para apelar à consciência e, em um diálogo real, atuar como mediadora. A mudança social efetiva, no entanto, caberia à sociedade civil.
A “domesticação” do povo e o temor da violência
Padre Alberto analisa como o povo cubano, que historicamente lutou por sua independência e contra ditaduras, foi “domesticado”. Ele descreve como o governo inicial soube aproveitar a esperança popular após a ditadura de Fulgencio Batista, mas rapidamente instaurou um regime de terror com fuzilamentos e julgamentos populares. O controle das instituições, da educação, da imprensa, somado ao isolamento da ilha, contribuiu para uma “progressiva domesticação”.
Apesar das transições pacíficas em países do Leste Europeu, o sacerdote teme que em Cuba o desmantelamento do sistema possa ser violento, devido à “raiva acumulada” e à falta de opções para o povo se expressar. Ele cita a possibilidade de um “transbordamento das feridas” em caso de vazio de poder, que poderia levar a uma “espiral de vingança”. O padre enfatiza a necessidade de justiça transicional, onde aqueles que causaram danos respondam por seus atos, para evitar um “ajuste de contas” desastroso.
Ele também alerta para a “perda de valores” e a “brutal descapitalização humana”, com milhões de trabalhadores e profissionais deixando o país, o que dificultaria a reconstrução mesmo com apoio financeiro externo.
O anseio por mudança e a falta de liderança
Uma pesquisa do meio independente El Toque indicou que mais de 56% dos cubanos na ilha e 67% na diáspora desejariam uma intervenção militar dos EUA para pôr fim à crise. Padre Alberto interpreta isso não como um desejo por intervenção em si, mas como um “grito de angústia” e um anseio desesperado pelo fim da situação atual. Ele argumenta que, na ausência de outras opções claras, a intervenção surge como uma solução para muitos.
O sacerdote expressa preocupação com a falta de liderança e estrutura política para uma transição, caso o governo atual seja afastado. Ele compara a situação de Cuba com a da Venezuela, onde há uma oposição e estrutura para as eleições, e com o Panamá, onde os EUA entregaram o poder a um grupo específico. Em Cuba, o governo teria desmembrado sistematicamente o tecido civil, dificultando o surgimento de líderes com experiência política.
Padre Alberto, no entanto, mantém o otimismo. Ele acredita que “algo tem que acontecer” e que as pessoas estão se manifestando com mais liberdade e começando a sonhar com a mudança. Ele prevê que, em três a cinco anos, Cuba pode ser um país totalmente diferente, plural, integrador, feliz e democrático, embora reconheça que os cubanos terão que “aprender a viver na liberdade, na escuta, no trabalho em equipe, na democracia”.
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